Deserto do Atacama: roteiro completo de 6 dias

Existem destinos que chamam atenção pelos monumentos, outros pela gastronomia e alguns pela história. O Deserto do Atacama é diferente. Ele conquista pelo silêncio, pela imensidão e pela sensação de estar em um lugar que parece não pertencer ao nosso planeta.

Quando começamos a planejar essa viagem, encontramos muitos roteiros dizendo quais passeios fazer, mas poucos explicavam como realmente é viver o Atacama. Como é acordar antes das cinco da manhã para ver um nascer do sol nos gêiseres, sentir o frio mais intenso da vida, pedalar no meio do deserto ou simplesmente caminhar pela Rua Caracoles depois de um dia inteiro explorando paisagens inacreditáveis.

Como chegar ao Deserto do Atacama

Nossa viagem começou em São Paulo com destino a Santiago, capital do Chile.
Optamos por passar uma noite em Santiago antes de seguir viagem. Além de evitar qualquer estresse com conexões, também conseguimos descansar depois do voo internacional.

Antes mesmo de começarmos este roteiro, já vai a primeira dica que fez toda a diferença na nossa viagem.
Se você gosta de viajar na janela e sonha em ver a Cordilheira dos Andes do alto, escolha seu assento com atenção. No voo São Paulo → Santiago, tente reservar um lugar do lado direito da aeronave. Na volta, no trecho Santiago → São Paulo, prefira o lado esquerdo. Na nossa viagem, foi desses lados que tivemos as vistas mais bonitas da cordilheira. Claro que isso pode variar de acordo com a rota escolhida pela companhia aérea e com as condições climáticas do dia, mas vale a pena tentar.

Na manhã seguinte embarcamos para Calama, cidade que possui o aeroporto mais próximo de San Pedro do Atacama.
Ao desembarcar, encontramos diversas empresas que fazem o transfer em vans compartilhadas até San Pedro. Compramos o transporte logo na saída do aeroporto e já aproveitamos para reservar e pagar o transfer de volta para Calama no último dia da viagem. Foi uma decisão que trouxe bastante tranquilidade, já que não precisamos nos preocupar com transporte próximo ao retorno.

Onde ficar em San Pedro do Atacama

San Pedro do Atacama oferece hospedagens para todos os perfis de viajantes, desde hostels econômicos até hotéis de luxo com piscinas e spas.
Nossa principal dica é simples: quanto mais próximo da Rua Caracoles, melhor.
É nessa rua que praticamente tudo acontece. Restaurantes, cafeterias, mercados, lojinhas, farmácias, agências de turismo e boa parte da vida da cidade estão concentrados ali.

Nós ficamos no Parina Atacama.
Não foi o hotel mais bonito da viagem, mas considerando que fizemos a reserva apenas 13 dias antes do embarque, acabou sendo uma das melhores opções de custo-benefício que encontramos.
Aliás, aprendemos uma coisa interessante durante essa viagem: no Atacama, o hotel acaba sendo apenas um lugar para dormir.
A maioria dos passeios começa muito cedo, alguns antes das 5h da manhã, e muitos retornam somente no final da tarde ou à noite. Você passa praticamente o dia inteiro explorando o deserto.
Por isso, nossa sugestão é reservar a hospedagem com bastante antecedência. Os hotéis com melhor localização e melhor custo-benefício costumam esgotar rapidamente.

Uma dica importante para quem vai no inverno

Visitamos o Atacama no final de agosto.
Durante o dia, quando o sol aparece, faz bastante calor. Em alguns momentos caminhávamos apenas com uma blusa leve.
Mas basta o sol desaparecer para a temperatura despencar.
Outro detalhe importante é que alguns hotéis desligam o aquecimento durante a madrugada para economizar energia. Pode parecer um detalhe pequeno, mas dormir com frio depois de um dia inteiro de passeio não é nada agradável.
Então, se você pretende visitar o Atacama durante o inverno, leve roupas quentes até mesmo para dormir.

Antes de começar os passeios: prepare-se para a altitude

Se existe um assunto que merece atenção antes de viajar para o Atacama, é a altitude.
Grande parte dos passeios acontece acima dos 3.000 metros e alguns ultrapassam facilmente os 4.000 metros.
Mesmo pessoas jovens e acostumadas a praticar atividades físicas podem sentir os efeitos da menor concentração de oxigênio.
Dor de cabeça, tontura, falta de ar, enjoo e um cansaço maior que o normal são sintomas relativamente comuns.
Foi justamente por isso que decidimos organizar nosso roteiro de forma crescente.
Nos primeiros dias escolhemos passeios de menor altitude e deixamos os mais altos para depois, dando tempo para o organismo se adaptar.
Além disso, algumas atitudes fazem muita diferença:

  • Beba bastante água durante toda a viagem.
  • Evite exagerar nas bebidas alcoólicas.
  • Faça refeições leves antes dos passeios.
  • Caminhe no seu ritmo.
  • Durma bem sempre que possível.
  • Não tente competir com a altitude.

Dia 1 – Pukará de Quitor e Valle de la Luna

Como queríamos respeitar o período de aclimatação, decidimos começar a viagem com um passeio tranquilo.
Alugamos bicicletas em San Pedro e seguimos pedalando até o Pukará de Quitor, uma antiga fortaleza construída pelo povo atacamenho.
O percurso é agradável e permite conhecer um pouco mais da paisagem ao redor da cidade. Ao chegar na base do sítio arqueológico, deixamos as bicicletas presas com cadeado e seguimos caminhando até o topo.
A subida não é longa, mas ali já começamos a perceber como a altitude muda completamente o ritmo do corpo.
Você respira mais devagar. Cansa mais rápido. E aprende rapidamente que não vale a pena ter pressa.
Nossa mochila levava três itens indispensáveis:

  • muita água;
  • barrinhas de cereal;
  • chocolate.

Pode parecer simples, mas fazem muita diferença durante os passeios.
Do alto do Pukará tivemos uma vista incrível do vale e dos vulcões ao fundo. Foi uma das primeiras vezes em que realmente sentimos que estávamos no deserto mais árido do mundo.

Voltamos para San Pedro, almoçamos na Rua Caracoles e descansamos um pouco antes do passeio da tarde. Nosso primeiro tour com agência foi para o Valle de la Luna.
É impossível preparar alguém para o que vai encontrar ali. As formações rochosas, as montanhas, as cores da areia e o silêncio fazem você esquecer completamente do restante do mundo.
Cada parada parece um cenário diferente. E quando o sol começa a se pôr, tudo muda de cor. É uma das paisagens mais bonitas que já vimos.
Ao retornar, a agência nos deixou na Rua Caracoles, onde aproveitamos para jantar e caminhar um pouco antes de voltar para o hotel.

Dia 2 – Centro de San Pedro e Vallecito

Na manhã seguinte decidimos explorar a cidade sem pressa.

Visitamos a tradicional Igreja de San Pedro de Atacama, construída em adobe e considerada um dos principais símbolos da cidade.

Depois caminhamos pela Rua Caracoles, entramos em algumas lojas de artesanato, tomamos um café e simplesmente aproveitamos o clima tranquilo da cidade.

À tarde seguimos para o passeio do Vallecito.
Se o Valle de la Luna já impressiona, o Vallecito consegue surpreender novamente. É um daqueles lugares onde você olha para os lados e pensa que poderia facilmente estar em Marte.
Um dos pontos mais famosos do passeio é o Magic Bus, um antigo ônibus abandonado no meio do deserto que acabou se transformando em um dos cenários mais fotografados do Atacama.
Se você gosta de fotografia, reserve um tempinho para esse momento. As fotos ficam incríveis e o contraste entre o ônibus enferrujado e a paisagem desértica cria um cenário único.
Terminamos o dia admirando mais um pôr do sol inesquecível antes de voltar para San Pedro para jantar.
Até aquele momento da viagem já tínhamos entendido uma coisa: nenhuma foto consegue transmitir a grandiosidade do Atacama.

É um destino que precisa ser vivido.

Dia 3 – Piedras Rojas, Lagunas Altiplânicas e um céu que nunca vamos esquecer

Se existe um passeio que representa a grandiosidade do Atacama, para nós foi o de Piedras Rojas e das Lagunas Altiplânicas.
É um passeio de dia inteiro, daqueles em que você sai cedo do hotel e só retorna no fim da tarde, mas a cada parada a sensação é de que valeu a pena acordar cedo.
As lagoas possuem um azul tão intenso que parecem editadas em uma fotografia. Em contraste com as montanhas, os vulcões e o vermelho das pedras, formam uma paisagem que dificilmente conseguimos descrever apenas com palavras.
A agência oferece o almoço durante o passeio, o que facilita bastante, já que praticamente não existe estrutura turística ao longo do caminho.

Aliás, esse é um detalhe importante que pouca gente comenta.
Durante muitos passeios no Atacama existem poucos banheiros estruturados. Em alguns momentos, a natureza acaba sendo a única alternativa. Pode parecer engraçado agora, mas é uma informação importante para ir preparado e evitar surpresas.
Outro ponto fundamental é a altitude.
Nesse passeio ela já começa a ficar bastante elevada e você percebe isso rapidamente. Caminhar alguns metros já exige mais esforço do que o normal. Além do vento constante. Por isso, reforçamos uma dica: hidrate-se muito bem desde o dia anterior.

Tour Astronômico

À noite fizemos um dos passeios mais famosos do Atacama: o tour astronômico.

E aqui vai uma dica importante:
Antes de reservar esse passeio, confira a fase da Lua. Quanto menor a luminosidade da Lua, melhor será a observação do céu. Na época de lua cheia, o brilho acaba diminuindo bastante a quantidade de estrelas visíveis. Se conseguir programar a viagem para períodos de lua nova ou lua crescente, sua experiência será muito melhor.

Olhar para aquele céu completamente tomado por estrelas foi um daqueles momentos em que a gente simplesmente fica em silêncio.

Dia 4 – Geysers del Tatio: o maior frio que já sentimos

No dia seguinte acordamos ainda de madrugada.
Muito antes do nascer do sol.
O destino era um dos cartões-postais do Atacama: os Geysers del Tatio.
Quando fomos, a sensação térmica estava próxima dos -15°C.
Foi, sem dúvida, o maior frio que já sentimos na vida.
Mesmo usando várias camadas de roupa, gorro, luvas e cachecol, o frio impressiona.
Mas basta o sol começar a nascer para entender por que esse passeio é tão famoso.
Ver o vapor saindo dos gêiseres enquanto os primeiros raios de sol iluminam as montanhas é uma experiência única.

A altitude aqui também pesa bastante.
Então caminhe devagar, respeite seu corpo e não tenha vergonha de fazer pausas quando sentir necessidade.

Dia 5 – Rota dos Salares

Nosso último passeio com agência foi a Rota dos Salares.
Confesso que, depois de tantos dias conhecendo paisagens impressionantes, achei que já não seria tão fácil me surpreender.
Eu estava completamente enganada. Cada salar possui características diferentes. As cores mudam. A vegetação muda. Os animais aparecem em alguns trechos.
E a sensação continua sendo a mesma: você está em um lugar completamente diferente de tudo o que já conheceu.
É aquele tipo de passeio em que vale a pena guardar o celular por alguns minutos e simplesmente observar.

Dia 6 – Garganta del Diablo de bicicleta

No nosso último dia em San Pedro decidimos fazer tudo no nosso ritmo.
Alugamos bicicletas novamente e seguimos até a Garganta del Diablo.
O percurso exige um pouco mais de esforço do que o passeio ao Pukará de Quitor.
Existe uma subida relativamente longa e o calor pode ser intenso durante o dia.
Por isso, não economize na água.
Ao chegar, a trilha leva por formações rochosas impressionantes.
Quem tiver disposição ainda pode subir até um ponto mais alto, de onde é possível observar um dos vulcões da região.
Foi uma maneira perfeita de encerrar nossa viagem.
Também é possível fazer esse passeio com guia.

Os passeios que ficaram para uma próxima viagem

Mesmo passando quase uma semana no Atacama, ainda existem muitos lugares que gostaríamos de conhecer.
Um deles são as Lagoas Escondidas de Baltinache.
Infelizmente, durante nossa viagem elas estavam temporariamente impróprias para banho, então preferimos deixar essa experiência para uma próxima oportunidade.
Também descobrimos que algumas atrações dependem bastante da época do ano.
Durante o verão, por exemplo, muitos viajantes aproveitam para conhecer as Termas de Puritama, famosas pelas águas termais em meio ao deserto.
Outra opção bastante procurada são as Termas de Guatín, uma experiência diferente para quem busca um contato ainda maior com a natureza.
E, para quem gosta de aventura, existe a possibilidade de escalar o Vulcão Lascar.
É um passeio bastante exigente fisicamente e que acontece em uma altitude elevada, sendo recomendado apenas para quem já está bem aclimatado e possui bom condicionamento físico.
São ótimos motivos para voltar ao Atacama um dia.

A agência que escolhemos

Todos os nossos passeios foram realizados com a We Love Chile.
Fechamos todo o roteiro cerca de 10 dias antes de chegar a San Pedro do Atacama, o que nos deu bastante tranquilidade.
A We Love Chile pode ser considerada uma agência intermediária.
Existem empresas mais econômicas, que você consegue contratar diretamente na Rua Caracoles, e também agências mais estruturadas, com veículos mais confortáveis, grupos menores e até cilindros de oxigênio para situações de emergência durante os passeios em altitude.
Nossa experiência foi muito positiva.
Mas, se você possui algum problema de saúde, principalmente relacionado ao coração ou ao sistema respiratório, vale a pena investir em uma agência mais preparada.
Em um lugar onde alguns passeios ultrapassam os quatro mil metros de altitude, segurança sempre deve vir em primeiro lugar.

Vale a pena conhecer o Atacama?

Sem nenhuma dúvida.
O Atacama não é apenas um lugar bonito. É uma experiência.
É um destino que nos faz diminuir o ritmo, observar mais e entender como a natureza pode ser grandiosa.
Voltamos para casa com milhares de fotografias.
Mas, curiosamente, as melhores lembranças não estão nelas. Elas estão na sensação de pedalar no meio do deserto sem encontrar ninguém pelo caminho.
Se você está pensando em conhecer o Atacama, vá.
Planeje com calma, respeite a altitude, reserve o hotel com antecedência e permita-se viver cada momento.
Tenho certeza de que, assim como aconteceu conosco, essa será uma viagem que continuará ocupando um lugar especial na sua memória muito tempo depois de voltar para casa.

No Beyond Routes, a gente acredita que viajar não é apenas colecionar destinos, mas colecionar histórias. E o Atacama nos ensinou que alguns lugares não impressionam apenas pelo que vemos, mas principalmente pelo que sentimos. Esperamos que este roteiro ajude você a viver essa experiência do seu jeito e, quem sabe, criar memórias tão especiais quanto as nossas.